Sunday, March 23, 2008

PARA O FMI, A CRISE VEIO PARA DURAR


PARA O FMI: A CRISE VEIO PARA DURAR

A afirmação peremptória veio do chefe do FMI, Dominique Strauss-Kahn, dia 17/3 último: a crise “vai durar bastante tempo”, e terá “graves conseqüências”, acrescentando em seguida que num primeiro momento, a tempestade atinge os Estados Unidos e a Europa, mas é uma questão de tempo para também afetar os emergentes (Carta Capital, 26/3/8). O fundo financeiro Carlyle Capital Corporation quebrou em 13/3 – o quinto banco inglês, o Northern Rock, tinha falido já em 18/2 – por conta de dívidas 32 vezes superiores ao seu patrimônio. O banco de investimentos JP Morgan Chase comprou seu rival, o Bear Stearns por 7% do seu valor de mercado com apoio financeiro do Fed. No meio da crise, ação entre amigos.

A política do Banco Central americano tem sido de baixar os juros (o custo do dinheiro já anda negativo em relação à inflação) para facilitar o socorro aos bancos comerciais em ameaça de crise e, ao mesmo tempo, adotar uma espécie de Proer seletivo para ir neutralizando títulos podres no mercado. O sistema financeiro tenta se salvar socorrendo-se do Estado norte-americano, Estado que não é um saco sem fundo: em fevereiro amargou um déficit orçamentário recorde (175 bilhões de dólares).

Já se fala em ajuda do FMI (que socorreu a Ásia em quebra em 1997: com 56 bilhões de dólares à Coréia, 40 bilhões à Indonésia, 17 bilhões à Tailândia, além dos 18 bi de dólares ao Brasil em 1998). O grande capital tenta evitar a UTI de uma grande depressão, consciente das suas conseqüências em termos de riscos de um caos social pelos quatro cantos do planeta.

De toda forma, acumulam-se os sintomas de uma grave crise. As declarações agora em março do ex-chefe do Fed norte-americano (Greenspan) foram sombrias. E o ouro, grande refúgio da insegurança geral, bateu o recorde de cotação (a onça troy de ouro superou os mil dólares) o que, nominalmente, significa o seu maior preço desde que Nixon, em 1971, abandonou a conversibilidade do dólar-ouro, portanto, estamos diante da maior cotação em quase 40 anos. O ouro será o último ativo a ser atacado pela crise. No entanto, além de ser um sinal da gravidade da própria crise, a corrida ao ouro terá conseqüências graves sobre a economia (exemplo: agrava deflação). A isso tudo é preciso juntar ameaça inflacionária na China e queda do desemprego nos Estados Unidos. É aguardar para ver.

A ilusão dos agentes do sistema é a mesma de antes: a intervenção salvadora com dinheiro público alimenta a crença de que as turbulências da acumulação especulativa estarão sempre a salvo de perdas totais ou desestabilização plena do sistema, as eventuais crises são momentâneas, não passam de oportunidades para os mais fortes. Essa é sua verdade e sua crença.


Esta verdade imediata, conjuntural – e não válida para toda conjuntura até porque existe o mundo tensionado da relação entre as classes sociais que explode aqui e ali –, mesmo no plano econômico, tende a esfumar-se no longo prazo. O descolamento entre especulação e economia produtiva tem um limite real, para além de qualquer intervenção salvadora dos bancos centrais.

Ge Dantas

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