Chávez nacionalizou empresa: é o socialismo em marcha?

Chavez nacionalizou uma empresa capitalista (Sidor): estamos em marcha para o socialismo na Venezuela?
[Extraído de entrevista com Claudionor Brandão, militante da LER-QI e diretor, como minoria, do Sindicato de Trabalhadores da USP (Sintusp) ao jornal Palavra Operária ]
"Palavra Operária: Os chavistas dizem que uma das provas do “antiimperialismo” e do “socialismo” de Chávez é que este nacionalizou empresas como a Sidor...
Brandão: Justamente o contrário. A medida de pseudonacionalização da Sidor é conseqüência direta da luta dos trabalhadores siderúrgicos nos últimos meses por melhores condições de trabalho e salário, no bojo da qual uma de suas principais demandas era a reestatização dessa empresa que foi privatizada em 1997. Foi depois de o governo atuar claramente ao lado da patronal transnacional, e após ter enviado a Guarda Nacional para reprimir os operários da Sidor, que Chávez diante da firmeza dos trabalhadores se viu obrigado a adotar a pseudonacionalização. Ou seja, foi um triunfo dos trabalhadores e uma medida que eles arrancaram do governo. Para enganar os trabalhadores, Chávez diz que os patrões da Sidor são “a transnacional capitalista exploradora” e fala em “escravismo”. Entretanto, citemos literalmente as palavras utilizadas por Chávez logo após o anúncio da pseudonacionalização para tranqüilizar os empresários: “Com Rocca [dono da Sidor] somos sócios. Queremos que o grupo Paolo [patrões da Sidor] siga operando na Venezuela. Queremos uma sociedade igualitária.” E assim responderam os patrões: “Desejamos que a Sidor, cuja transição em mãos do Estado já começou, continue o caminho do êxito (...) Nosso compromisso segue firme para contribuir com nosso aporte.” Essa “sociedade igualitária” entre os dois “sócios”, logo após a tão barulhenta “nacionalização”, é na verdade um acordo mediante o qual o governo propõe aos patrões da Sidor que aceitem ficar com 20% das ações, parte da empresa, a comercialização da produção no exterior etc. É isso que explica que os patrões não têm gritado contra o anúncio de Chávez. O próprio decreto de “nacionalização” estabelece que Chávez pagará aos donos da Sidor os melhores preços de mercado pela empresa. Assim, este acordo permitiu que Chávez aparecesse como “nacionalista” e ao mesmo tempo garantiu aos empresários um bom negócio. Um bom exemplo do caráter dessa pseudonacionalização de Chávez é sua política em relação aos trabalhadores terceirizados da Sidor. Aqui no Sintusp uma das principais lutas que travamos contra a reitoria e que foi aprovada em nosso IV Congresso é pelo fim da terceirização, com a incorporação dos terceirizados como trabalhadores efetivos da USP. Pois bem, a “nova” Sidor de Chávez mostra rapidamente seu verdadeiro rosto negando-se a incorporar como trabalhadores efetivos os mais de 9.000 terceirizados, ingressando menos de 1.000 trabalhadores (quando o patrão antes já havia proposto incorporar 600 deles). No convênio coletivo firmado com o sindicato, se mantém as empresas terceirizadas, o que não elimina o problema da terceirização, e se ratifica permitindo que siga a “escravidão” da qual fala o “comandante”. Por isso, os terceirizados da Sidor têm saído à luta por sua incorporação como efetivos da empresa. Vêm se mobilizando contra a empresa e o sindicato, já que a burocracia (ligada ao governo) os deixou de fora apesar de que eles tinham se somado a todos as paralisações anteriores, levantando a consigna “igual trabalho, igual salário”. Frente às mobilizações dos trabalhadores terceirizados para serem incorporados como efetivos, canalhescamente Chávez disse que isso não é possível porque a empresa “quebraria”, e chamou de “contra-revolucionários” os que reivindicam esse direito. Isso não é de se estranhar, pois os funcionários do governo Chávez que antes da “nacionalização” faziam parte da direção da empresa sempre apoiaram sem objeções suas políticas trabalhistas, e jamais denunciaram violações nem maltratos aos direitos trabalhistas e muito menos os danos ambientais. É verdade que o anúncio da “nacionalização” da Sidor por parte de Chávez, como fruto da forte luta levada a cabo pelos trabalhadores siderúrgicos, gerou alegria entre os trabalhadores. Mas é necessário distinguir entre esta alegria operária e o “triunfalismo” de alguns partidos, grupos e dirigentes chavistas que pretendem tomá-lo como ponto de apoio para seguir enganando os trabalhadores com o projeto de “socialismo com empresários” do chavismo".
[Entrevista publicada no jornal Palavra Operária n.42 de 17/6/08]





