Sunday, June 22, 2008

Chávez nacionalizou empresa: é o socialismo em marcha?



Chavez nacionalizou uma empresa capitalista (Sidor): estamos em marcha para o socialismo na Venezuela?

[Extraído de entrevista com Claudionor Brandão, militante da LER-QI e diretor, como minoria, do Sindicato de Trabalhadores da USP (Sintusp) ao jornal Palavra Operária ]


"Palavra Operária: Os chavistas dizem que uma das provas do “antiimperialismo” e do “socialismo” de Chávez é que este nacionalizou empresas como a Sidor...
Brandão: Justamente o contrário. A medida de pseudonacionalização da Sidor é conseqüência direta da luta dos trabalhadores siderúrgicos nos últimos meses por melhores condições de trabalho e salário, no bojo da qual uma de suas principais demandas era a reestatização dessa empresa que foi privatizada em 1997. Foi depois de o governo atuar claramente ao lado da patronal transnacional, e após ter enviado a Guarda Nacional para reprimir os operários da Sidor, que Chávez diante da firmeza dos trabalhadores se viu obrigado a adotar a pseudonacionalização. Ou seja, foi um triunfo dos trabalhadores e uma medida que eles arrancaram do governo. Para enganar os trabalhadores, Chávez diz que os patrões da Sidor são “a transnacional capitalista exploradora” e fala em “escravismo”. Entretanto, citemos literalmente as palavras utilizadas por Chávez logo após o anúncio da pseudonacionalização para tranqüilizar os empresários: “Com Rocca [dono da Sidor] somos sócios. Queremos que o grupo Paolo [patrões da Sidor] siga operando na Venezuela. Queremos uma sociedade igualitária.” E assim responderam os patrões: “Desejamos que a Sidor, cuja transição em mãos do Estado já começou, continue o caminho do êxito (...) Nosso compromisso segue firme para contribuir com nosso aporte.” Essa “sociedade igualitária” entre os dois “sócios”, logo após a tão barulhenta “nacionalização”, é na verdade um acordo mediante o qual o governo propõe aos patrões da Sidor que aceitem ficar com 20% das ações, parte da empresa, a comercialização da produção no exterior etc. É isso que explica que os patrões não têm gritado contra o anúncio de Chávez. O próprio decreto de “nacionalização” estabelece que Chávez pagará aos donos da Sidor os melhores preços de mercado pela empresa. Assim, este acordo permitiu que Chávez aparecesse como “nacionalista” e ao mesmo tempo garantiu aos empresários um bom negócio. Um bom exemplo do caráter dessa pseudonacionalização de Chávez é sua política em relação aos trabalhadores terceirizados da Sidor. Aqui no Sintusp uma das principais lutas que travamos contra a reitoria e que foi aprovada em nosso IV Congresso é pelo fim da terceirização, com a incorporação dos terceirizados como trabalhadores efetivos da USP. Pois bem, a “nova” Sidor de Chávez mostra rapidamente seu verdadeiro rosto negando-se a incorporar como trabalhadores efetivos os mais de 9.000 terceirizados, ingressando menos de 1.000 trabalhadores (quando o patrão antes já havia proposto incorporar 600 deles). No convênio coletivo firmado com o sindicato, se mantém as empresas terceirizadas, o que não elimina o problema da terceirização, e se ratifica permitindo que siga a “escravidão” da qual fala o “comandante”. Por isso, os terceirizados da Sidor têm saído à luta por sua incorporação como efetivos da empresa. Vêm se mobilizando contra a empresa e o sindicato, já que a burocracia (ligada ao governo) os deixou de fora apesar de que eles tinham se somado a todos as paralisações anteriores, levantando a consigna “igual trabalho, igual salário”. Frente às mobilizações dos trabalhadores terceirizados para serem incorporados como efetivos, canalhescamente Chávez disse que isso não é possível porque a empresa “quebraria”, e chamou de “contra-revolucionários” os que reivindicam esse direito. Isso não é de se estranhar, pois os funcionários do governo Chávez que antes da “nacionalização” faziam parte da direção da empresa sempre apoiaram sem objeções suas políticas trabalhistas, e jamais denunciaram violações nem maltratos aos direitos trabalhistas e muito menos os danos ambientais. É verdade que o anúncio da “nacionalização” da Sidor por parte de Chávez, como fruto da forte luta levada a cabo pelos trabalhadores siderúrgicos, gerou alegria entre os trabalhadores. Mas é necessário distinguir entre esta alegria operária e o “triunfalismo” de alguns partidos, grupos e dirigentes chavistas que pretendem tomá-lo como ponto de apoio para seguir enganando os trabalhadores com o projeto de “socialismo com empresários” do chavismo".


[Entrevista publicada no jornal Palavra Operária n.42 de 17/6/08]

Wednesday, June 04, 2008

Etanol, grandes corporações e agrocobiça


Etanol, agrocobiça e grandes corporações

É absolutamente urgente e necessária a busca pela energia limpa, pelo biocombustível. Por outro lado é também absolutamente necessário ter claro que os grandes proprietários rurais e as grandes corporações jamais se transformarão no caminho para que se chegue à energia limpa, barata e disponível a toda a sociedade.

Por um momento, vamos considerar o seguinte argumento: a bioenergia sozinha não tem como resolver o atual problema energético do mundo. Se as atuais plantações de milho e de cana de açúcar que são fonte básica do etanol – todas elas somadas – fossem voltadas à produção de etanol, nem de longe cobririam a demanda mundial de combustível (não cobririam sequer um quinto).

Pois bem, qual a reação do agro-negócio diante disso? Em sua sede de lucro – diante da oportunidade aberta pela crise do petróleo – não apenas desviam o máximo de cana de açúcar (e milho) para o etanol, como invadem áreas de plantações de alimentos e florestas virgens.

O resultado: mais devastação e mais carbono na atmosfera (mais efeito estufa) e tendência ao encarecimento do preço dos alimentos. Isso já vem acontecendo.

Da mesma forma já vem acontecendo que grandes corporações do petróleo, automóveis e do agro-negócio estão se lançando com tudo nos lucros do etanol. Daqui a pouco estarão dominando grandes segmentos do setor, inclusive terras e usinas. Vamos pensar nisto sempre levando em conta que não há chance de o capitalismo um dia tornar-se bonzinho, ecológico e preocupado com o bem público. Esperar que os latifundiários e essas multinacionais tornem-se preocupados com preços baratos, qualidade de alimentos ou com meio ambiente mais do que com seus lucros e seu saque é o mesmo que acreditar em saci pererê.

Lula, os Kirchner, terminam funcionando, nesse contexto, como um misto de testas-de-ferro e ilusionistas. Para mudar essa história, os trabalhadores terão que levar adiante uma grande luta, intervir e controlar o setor: essas grandes concentrações de terras privadas e as corporações agro-industriais como Monsanto e outras, teriam que ser confiscadas pelo governo e sua produção finalmente planificada de tal forma que a prioridade passe a ser alimentos bons e baratos (sem transgênicos). O resto é firula.
Ge Dantas





1978-80: PT das origens?
(Começa no Brasil o grande debate
de desmistificação da história oficial petista)

Lula no PT das origens, nos movimentos grevistas do ABC dos quais resultou o PT. Quem era Lula? “No lugar do caudilho espontâneo e ingênuo, saído do seio das massas em estado de puro carisma e combatividade – encontraremos o dirigente sindical saído da estrutura oficial varguista e nunca disposto a romper com ela.
No lugar do mito do grande líder operário que sozinho comandava centenas de milhares na luta direta contra os patrões e a ditadura – encontraremos o burocrata colaboracionista, que usava sua posição dirigente (conquistada pela via dos conchavos no interior do peleguismo, e não pelos “clássicos” meios da insurgência operária) para acomodar, conciliar – e inclusive diretamente para trair as enormes greves que lhe fizeram a fama, como no caso da mais importante delas, a de 1980 [2].
No lugar do PT como coroação “natural” e “legítima” para um ascenso que era cada vez mais político, vemos um instrumento sob medida para, apoiando-se no sincero desejo dos trabalhadores de fazer política, distorcer esse desejo e canalizá-lo unicamente para a “política” da transição negociada e pacífica com a ditadura, para a via morta da democracia dos ricos e suas farsas eleitorais.
No lugar dos “aliados democráticos do proletariado”, vemos que os senhores como Ulysses e Tancredo nada mais foram que políticos ardilosos e matreiros a serviço da classe capitalista, que sob a nebulosa palavra “democracia” escondiam apenas uma nova face –rejuvenescida, é certo, mas nem por isso menos perversa – do capitalismo semicolonial e racista que nos explora e oprime a cada dia.
No lugar de uma transição democrática em que as massas impuseram o seu peso e a sua marca, vemos uma manobra gatopardista que se impôs sobre as massas, desviou e sufocou seu ascenso, que as deixou prostradas e sem saber como e contra quem lutar. A construção de um verdadeiro partido revolucionário passa pela desmistificação da história petista”.
(Fonte: Edison Salles, Jornal Palavra Operária n.41, maio 2008).

Leia a íntegra desse novo enfoque histórico e político na Revista Estratégia Internacional n.3, que pode ser obtida por e-mail: ler-qi@ler-qi.org

Lula um ´estadista´ anti-nacional




Republico aqui trecho da coluna de Fausto Wolff de 29/5/08 (JB), pela lucidez cortante:





Vergonha na cara


"Cristovam Buarque é um intelectual, ex-membro do PT e hoje membro do PDT que, quando em Nova York, ao falar sobre a internacionalização da Amazônia, disse concordar que não só o petróleo, mas todos os minerais do mundo fossem internacionalizados. Ponto para ele, que sabe que sem a Amazônia o Brasil não passaria de um paizeco qualquer, daqueles que têm direito a falar na ONU apenas quando a maioria dos representantes das grandes potências está dormindo.
Os lucros de 31 nacionais e estrangeiros bancos em atividade no Brasil aumentaram, em 2007, para R$ 34,4 bilhões, com crescimento real de 43,3% em relação a 2006, quando tinham atingido R$ 25,05 bilhões. O retorno sobre o patrimônio aumentou de 21,2% para 24,3%.
Os 43,3% de crescimento real daqueles 31 bancos, em que estão incluídos os cinco com maiores lucros, superam o percentual destes, que aumentou 30,6% em 2007, com R$ 27,89 bilhões. De 2005 para 2006, seu aumento real foi 19,73%. No período FHC, os bancos acumularam um crescimento de 11% e os lucros ultrapassaram os 13%. Quando todos acharam que ninguém bateria o príncipe da maldade, surge o sr. Silva e os bancos lucraram 145%.



Que temos então? Uma escalada em aceleração desde o início dos oito anos de FHC, período em que a média de crescimento real foi 11% ao ano, ou seja, acumulou 130%. Nos dois primeiros anos de Lula, a média subiu para 14%. De 2003 a 2007, a média anual de crescimento real desses lucros foi 19,8%, acumulando 147% em apenas cinco anos. Computando os dois períodos, foram 468%, ou seja, os lucros reais multiplicaram-se por quase seis vezes.

Enquanto isso, no mundo real, na terra dos subumanos, em 1998 o paulista, trabalhador mais bem assalariado do Brasil, ganhava pouco mais de R$ 1.600 mensais. Este ano, com todas as demissões, o mesmo trabalhador ganha R$ 1.202 mensais.
Como essa política, segundo Meireles, não mudara, o sr. Silva, se continuar dando gorjetas aos partidos e carta branca para os bancos, se reelegerá quantas vezes quiser, pois o povo não entende de macroeconomia. Ele entende é de Lula, seu irmão operário que lhe dá rações de comida mensalmente.



Ano passado, quando senadores e deputados discutiam um pífio aumento de R$ 5 ou R$ 10 no salário mínimo, o senador Cristovam Buarque deu mancada braba no momento em que alguém ridicularizava a "benfeitoria". Surgiu no plenário bradando que um pão-sanduíche para os para-lamentares não era nada. Brandindo um pão no plenário, disse que a falta daquele pão na mesa do trabalhador significava muito. Troço meio surrealista, como se o aumento que pretendiam dar fosse maior do que a inflação, quando era em verdade muitíssimo menor, pois, como se sabe, temos duas inflações: a oficial e a dos trouxas. O que é isso, senador? Continuamos na época de Jean val Jean?"


Clint Eastwood: dois filmes, duas críticas ao imperialismo


Republicamos aqui uma crítica a dois filmes de Clint Eastwood ambientados na II Guerra Mundial em torno da batalha de Iwo Jima. A crítica é cinematográfica e política ao mesmo tempo. Acerta no alvo. Merece ser lida e discutida.
G.Dantas

A Conquista da Honra e Cartas de Iwo JimaArmas americanas, armas japonesas: ambas contra os trabalhadores


Por Leandro Ventura

"Os dois filmes recentes de Clint Eastwood, A Conquista da Honra e Cartas de Iwo Jima mostram duas caras de um mesmo conflito imperialista. Os dois se ambientam na pequena e sulfurosa ilha de Iwo Jima, palco de uma importante batalha na Segunda Guerra Mundial. Cada um dos filmes toma a tarefa de relatar a batalha e o drama pessoal de alguns soldados, A Conquista da Honra, o lado americano, e Cartas de Iwo Jima, o lado japonês.
À parte da bela fotografia (sobretudo no filme japonês) e da edição de som das cenas de batalha (premiada com o Oscar) o filme foi recebido pela crítica norte-americana como bom porém aquém de “O Resgate do Soldado Ryan”. Não é à toa. Aquele filme faz um esforço que beira o absurdo em pintar um rosto humano e caridoso do imperialismo norte-americano em meio ao banho de sangue vivamente representado; já os dois filmes de Eastwood não mostram tamanho banho de sangue, e o “lado humano” se mostra contraditório com a guerra e em certo sentido contra ela. Aí está o nó da questão e parte da riqueza destes filmes para nós que lutamos pela emancipação da humanidade.
A guerra era uma guerra imperialista e portanto contra os trabalhadores
Apesar do esforço sistemático da burguesia e de ideólogos que no fim da contas a ela servem, como o historiador Eric Hobsbawm, que escreveu A Era dos Extremos para demonstrar que a Segunda Guerra Mundial era um conflito entre democracia e fascismo, a verdade vem à tona. Os filmes de Eastwood, querendo ou não, mostram que se tratava de uma luta de interesses de burguesias imperialistas e que para conquistá-los mobilizavam tanto força quanto consenso afim impor sua hegemonia.
No filme do lado americano é desenvolvido o relato dos soldados que ergueram a bandeira americana na ilha, dando origem à famosa foto que se tornou um ícone do triunfo deste imperialismo. Estes soldados são retirados da batalha para fazer um tour pelos Estados Unidos. Ocorrem interessantes cenas onde estrategistas deste imperialismo vêem na foto uma oportunidade para reerguer a guerra, já desgastada, perante a opinião pública, e para arrecadar dinheiro para sustentar a guerra. Os soldados por sua vez oscilavam entre uma alegria com sua fama recém-conquistada e um desajuste em cumprir um papel com o qual discordavam, forçados a sorrir aos burgueses e mostrar heroísmo para coletar dólares para a guerra. A brutalidade do imperialismo “democrático” norte-americano fica ainda mais patente quando um dos soldados, um índio Pima, é ao mesmo tempo erguido como herói e sistematicamente oprimido por ser índio. Para completar, este soldado sofre por ter se tornado um falso herói e vai se tornando alcoólatra, os generais opinam que ele não é digno do uniforme e o retiram da campanha interna, para... reenviá-lo ao front. Ou seja, ele não era bom para o tour, mas servia para ser “bucha de canhão”!
Ao contrário do americano que mostra mais consenso, o filme japonês mostra com maior riqueza a força para impor a hegemonia. É rico em mostrar as duas caras que os soldados são forçados a ter, a mudança no tom de voz e nas opiniões na frente dos superiores e em suas conversas de canto. As constantes ameaças de punições físicas e de execuções. Uma das principais personagens deste filme chega perto de esboçar uma política para se retirar da guerra, argumenta que pouco importava a ilha e que o melhor seria entregá-la aos americanos e voltar para casa, esta personagem e outras chegam inclusive a dar algumas mostras de solidariedade com os soldados norte-americanos. Esta passagem do filme mostra como havia bases para a política dos revolucionários em um conflito como este, voltar as armas contra os generais e a burguesia se solidarizando com os soldados do outro lado para que fizessem o mesmo. Porém, não é isto que prima no filme, o que prima é a brutalidade. A brutalidade dos generais e suas punições, a brutalidade de uma polícia ideológica do imperialismo japonês e o ódio dos operários e dos pequenos-burgueses contra estes opressores, e ainda a arcaica opressão ao indivíduo e o suicídio forçado em nome da honra.
Estes filmes são mostra da crueza dos dramas pessoais que num tempo de guerras e revoluções são dramas sociais, na ausência de saídas revolucionárias. Os filmes são uma mostra das convulsões psicológicas e sociais na metade do caminho entre a defesa de seu próprio imperialismo e a situação retratada por uma safra de filmes onde o movimento de massas está numa ofensiva e a única alternativa é sair da guerra. Sintomáticos da atual situação do imperialismo norte-americano atolado no Iraque e no Afeganistão, mas ainda sem um movimento de massas que dê as cartas do jogo, ficam na terra de ninguém das trincheiras, que no fim das contas são de classe: ou se apóia a guerra imperialista e seu uso dos trabalhadores e da população como bucha de canhão, ou se defende que as armas devem se voltar contra os generais e os burgueses".


[Publicado no jornal Palavra Operária n.29, março 2007. Autor: Leandro Ventura]

Tuesday, June 03, 2008

Obama e Hillary: mal menor ou mal maior?



Obama ou Hillary? Nenhum dos dois significa qualquer mudança de fundo na política norte-americana. Obama é parte da plutocracia que governa o imperialismo norte-americano e que imagina uma alternância democrata frente à falência e a impopularidade da administração do republicano W.Bush.

Atolado no Oriente Médio, questionado por líderes de países menores como Venezuela, Irã e com o agravamento do quadro de desamparo social interno (Estados Unidos), W.Bush nunca foi tão impopular. Parte da elite imperialista quer mudar - eleitoralmente - para se contrapor ao declínio de certas posições internacionais dos EUA, em que pese sua força militar e como potência imperialista de primeira ordem.

Trabalhadores, negros pobres e jovens que se iludirem com os falsos ventos de mudança de Barack Obama vão amargar crise depois. É preciso lutar por uma nova política - a partir dos trabalhadores e com independência em relação à democracia dos ricos - o resto é a sempre renovada ideologia do "mal menor".


G.Dantas